sábado, 10 de janeiro de 2026

Valor Sentimental – Crítica | Um Drama Humano Sobre Afeto, Falhas e Conflitos Familiares

(Stellan Skarsgård, Renate Reinsve e Elle Fanning em um drama humano e silencioso) 


Valor Sentimental é uma produção norueguesa bastante interessante, que recebeu oito indicações ao Globo de Ouro 2026. O filme adota o tom de uma comédia dramática, embora seja claramente mais drama do que comédia, e gira em torno de uma pessoa que não percebe o quanto prejudica aqueles ao seu redor. O roteiro trabalha justamente essa zona cinzenta, tentando fazer com que o espectador compreenda o ponto de vista de cada personagem envolvido na história.

Vou falar mais adiante sobre o enredo em si e aprofundar a crítica, mas é importante destacar que o longa é dirigido por Joachim Trier, o mesmo de A Pior Pessoa do Mundo (2021), um filme extremamente bem recebido tanto pela crítica quanto pelo público. Por ser uma produção estrangeira, Valor Sentimental entra na disputa direta com o brasileiro O Agente Secreto e também com Foi Apenas um Acidente, formando o trio de filmes estrangeiros mais comentados no circuito pré-Oscar.

Apesar de ser um filme europeu, o elenco traz nomes bastante conhecidos, inclusive da cultura pop. Temos Stellan Skarsgård, vimos na franquia Thor; Elle Fanning, conhecida por Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, em live-action; e Renate Reinsve, protagonista de A Pior Pessoa do Mundo. Recentemente, ela também atuou em Um Homem Diferente, produção da A24 ao lado de Sebastian Stan, o Soldado Invernal da Marvel.

A história gira em torno das irmãs Nora, interpretada por Renate, e Agnes, vivida por Inga Ibsdotter Lilleaas, uma atriz ainda com poucos trabalhos conhecidos no grande circuito. As duas compartilham uma relação complicada com o pai, Gustav, um diretor de cinema famoso e excêntrico interpretado por Stellan Skarsgård, que está afastado do trabalho há muitos anos — e da vida das filhas — há muitos anos.

Esse afastamento prolongado é essencial para o conflito do filme. Gustav decide voltar à ativa com um novo roteiro e, inicialmente, quer que Nora protagonize o projeto. No entanto, devido ao distanciamento emocional, ao histórico problemático e ao jeito egocêntrico do pai, as irmãs não recebem bem esse retorno repentino, nem profissional nem pessoalmente.

Com o desenrolar da história, o destino acaba colocando Gustav frente a frente com a atriz Rachel Kemp, interpretada por Elle Fanning, que acaba assumindo o papel principal do filme. Porém, à medida que a produção avança, Rachel começa a perceber que aquele papel talvez não seja realmente para ela — não apenas artisticamente, mas emocionalmente.

Enquanto isso, Nora e Agnes tentam, cada uma à sua maneira, lidar com a presença do pai: seja tentando compreendê-lo, confrontá-lo ou simplesmente julgá-lo. A relação entre eles é marcada por ressentimentos, silêncios e mágoas mal resolvidas, o que dá ao filme um ritmo mais contido e introspectivo, mas também constantemente tensionado por esse vínculo familiar disfuncional.

Esse conflito com o pai é o eixo emocional da narrativa e dita o tom do longa, influenciando diretamente o ritmo e a forma como a história se desenvolve.


A narrativa de Valor Sentimental é bastante interessante justamente por tratar, com cuidado, os sentimentos de cada personagem. Gustav, ele vai tomando decisões, jogando responsabilidades e expectativas sobre os outros, acreditando que está fazendo o melhor — sem jamais se preocupar em entender o que essas pessoas realmente sentem.

Isso fica especialmente evidente na trajetória Rachel, talvez o arco mais claro e emocionalmente forte do filme. Vemos Rachel começar genuinamente empolgada ao lado de Gustav, feliz por participar de um projeto que, inicialmente, nem havia sido pensado para ela. Aos poucos, porém, o filme vai mostrando como essa empolgação se transforma em desgaste emocional, até chegar a um estado de abatimento profundo. Curiosamente, o impacto do que acontece com Rachel pesa mais para Gustav do que o próprio afastamento das filhas — e é aí que o filme encontra um ponto de virada importante no veterano.

Dentro desse contexto entram Nora e Agnes. Agnes é a irmã mais velha, mãe de uma criança — o neto de Gustav — e esse núcleo familiar também ganha algum desenvolvimento ao longo da trama. No entanto, a atuação de Inga Ibsdotter Lilleaas acaba sendo um dos poucos pontos fracos do filme. Sua interpretação soa artificial em vários momentos, falta verdade emocional, o que quebra um pouco a imersão. Esse talvez seja um dos raros aspectos negativos de um filme que, no geral, mantém uma boa qualidade narrativa, ainda que não seja uma obra arrebatadora ou daquelas que fazem o espectador sair do cinema impressionado.

Chegamos, então, a Nora, a grande protagonista. Dentro do estilo peculiar — estranho para alguns, mas extremamente eficiente — de atuação de Renate Reinsve, Nora é, de longe, a personagem com os maiores demônios internos do filme. Isso é mostrado com clareza. Ela percebe o quanto faz mal a si mesma, mas ao mesmo tempo existe algo dentro dela que deseja mudança, deseja algo melhor. Esse conflito fica muito evidente em pequenos momentos da narrativa, especialmente quando ela se envolve em um relacionamento: é possível ver, no olhar da personagem, a necessidade de afeto e cuidado.

No entanto, a vida a deixou em um estado emocional tão fragilizado que ela desenvolveu síndrome do pânico — e, ainda assim, segue atuando como atriz. Essa escolha narrativa pode gerar estranhamento e talvez seja um ponto discutível dentro do roteiro, mas não chega a comprometer a força da personagem.

O filme avança nesse vai e volta emocional entre Gustav e as filhas, com Rachel orbitando esse núcleo, até que, em determinado momento, todos os personagens acabam se cruzando de forma mais direta. A presença de Gustav, ironicamente, não melhora ninguém — pelo contrário, parece piorar tudo ao seu redor. Ainda assim, o roteiro constrói pequenas pontes emocionais que ajudam o espectador a entender essas relações disfuncionais.

Narrativamente, não é um filme muito dinâmico ou animado, mas ele consegue transmitir sua mensagem com eficiência. A fotografia é boa, há cenas pontuais bastante fortes, embora o encerramento não seja dos mais bem resolvidos. O roteiro não segue trilhos perfeitamente definidos, mas isso acaba sendo coerente com o caos emocional dos personagens. Temos alguns flashbacks importantes que definem a personalidade dos personagens hoje. Existe também os traumas da segunda guerra que interferem e mexem com pai e as filhas de formas diferentes,  principalmente na Agnes.

A atuação de Stellan Skarsgård é muito forte. Apesar de Nora ser a protagonista, é o personagem dele que funciona como o verdadeiro eixo do filme, aquele que move toda a narrativa. Tudo gira em torno de suas ações, escolhas e da forma como ele interfere na vida das outras pessoas. O filme precisava muito dessa presença — e ele entrega isso com precisão. Gustav é a engrenagem inicial e final que movimenta todos os personagens, mesmo sem ocupar oficialmente o centro da história.

Além disso, Valor Sentimental é um filme bem dirigido. A direção de arte é competente, a estética é bem cuidada e existe uma qualidade evidente na forma simples com que as cenas são realizadas. Não há excessos: o filme confia nos diálogos, nas atuações e nos silêncios para construir suas emoções, o que acaba chamando bastante atenção.

No geral, o longa apresenta poucos pontos negativos e muitos pontos positivos. É um filme interessante de se assistir, sólido dentro do que se propõe e que reforça a força de um drama bem conduzido, sem precisar de grandes artifícios.

Ao final, o que fica é uma história de sentimentos cotidianos, de dores silenciosas, de pessoas que machucam sem perceber e de outras que sofrem sem saber como reagir. Valor Sentimental é um filme humano, simples e direto. Ele não encanta de imediato, mas aos poucos vai envolvendo o espectador, revelando-se como um drama sólido, com pitadas de humor, que fala sobre relações familiares falhas — exatamente como muitas que existem na vida real.


Sinopse:
As irmãs Nora e Agnes reencontram seu pai distante, o carismático Gustav, diretor outrora renomado que oferece a Nora um papel naquele que espera ser seu filme de retorno. Quando Nora recusa a proposta, descobre que ele deu o papel a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e entusiasmada. De repente, as duas irmãs precisam lidar com a complicada relação com o pai e com a presença inesperada de uma atriz americana inserida bem no meio das complexas dinâmicas familiares. Direção: Joachim Trier. Distribuição nos cinemas pela Retrato Filmes com a Mubi.

Nota: Bom: 3,5/5

Imagens para divulgação fornecidas por assessorias ou retiradas da internet aberta dada os devidos créditos
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