quinta-feira, 28 de julho de 2022

Crítica Cinema | Aos Nossos Filhos

(Uma história sobre todos os tipos de vínculos)


A trama acompanha Vera (Marieta Severo), uma coordenadora de uma ONG que cuida de crianças soropositivas que precisa lidar com suas próprias contradições diante da escolha da filha, Tânia (Laura Castro), que deseja ser mãe de uma criança gestada no ventre de sua companheira, Vanessa (Marta Nóbrega). Elenco ainda conta com José de Abreu, Cláudio Lins, Antônio Pitanga, Denise Crispim, Aldri Anunciação e Ricardo Pereira, entre outros. Direção de Maria de Medeiros. Distribuição nacional da Imovision. Estreia nos cinemas brasileiros em 28 de julho de 2022. Para o trailer, clique aqui.

Aos Nossos Filhos


Que o mundo tem mudado não é novidade. Que o faz cada vez mais, também é sabido. Que a espécie humana (“sapiens”), em particular, passa por transformações é até corriqueiro dizer. Que tais modificações podem ser utilizadas para o bem e para o mal (por exemplo, o uso da Internet). Que algumas são boas – especialmente os avanços tecnológicos, em comunicações, medicina, transportes etc. Que outras são ruins – criação de armas mais sofisticadas, artefatos para destruir etc. E, por fim, que deveriam vir mais mudanças, é um anelo de muitos. Nesse quadro geral, os vínculos sexuais diferentes aos habituais já não chamam a atenção tanto quanto há alguns séculos e até décadas atrás. Nesse contexto, este filme de produção franco-brasileira e direção da portuguesa Maria (de) Medeiros hoje não resultaria tão surpreendente para muitos espectadores. Porém, não é tão tranquilo para outros. A trama tem como núcleo um casal lésbico e apresenta uma fecundação assistida desse casal. Aparecem conflitos advindos dessa maternidade e de que uma das mulheres queira assumir o papel de mãe, sendo que nem é a grávida. Além do anterior, a relação entre a mulher que quer ser mãe (Laura Castro, em seu debut como atriz) e sua mãe (a experiente Marieta Severo) não é precisamente das mais simples. Também o histórico desta última não é muito tranquilo: presa política na ditadura militar, foi vítima de todo tipo de atropelos e sofreu tormentos e torturas diversas. Grávida, na prisão, suportou não só suas próprias desgraças mas também as da sua companheira de cela. Claro que pesadelos monstruosos a visitam periodicamente (Medeiros não poupou mostrar imagens desagradáveis).


Ao relatado, somam-se problemas atuais, em uma favela onde há uma ONG que procura aliviar a situação de alguns meninos pobres e marginalizados, com futuro que ameaça ser muito problemático. Obviamente está o tráfico de drogas e os confrontos permanentes com a polícia. Algumas cenas podem ser citáveis: a primeira, onde a mulher lésbica e engravidada em modo assistido sai de uma igreja católica e se persigna devotamente. Não deixa de ser um paradoxo, pois essa igreja é contrária a diversas formas de concepção, toda maneira que não seja a natural e heteronormativa. A segunda, refere-se à personagem de Severo, que faz um esforço para revisitar seu tortuoso passado tentando fugir do que tinha procurado durante anos, que era esquecê-lo. “(Às vezes) o silêncio nos faz escravos do passado)” – reflete ela. Esta última cena é, talvez, a mais elaborada dramaticamente, embora seja um diálogo, sem apoio visual. . 


O balanço geral resulta em um filme sofrido, com poucos momentos de certo alívio e/ou alegria (mais do que felicidade). Em modo proposital, as roteiristas (de Medeiros e Castro, com base em peça teatral desta última) produzem uma sucessão de situações conflitivas, até asfixiantes, que podem abrumar ao espectador. Isso, embora já apontamos que o mundo apresenta mudanças até nas relações afetivas, e que isso não deve(ria) causar surpresa. O objetivo geral está bastante definido: Aos nossos filhos está contra todo tipo de preconceito. Porém, a série de problemas apresentados pode chegar a produzir certo esgotamento anímico no espectador. Por exemplo, pode cansar a imagem de Marieta Severo quase sempre triste, angustiada, com pouquíssimos momentos de calma. Assim, assiste-se a uma exibição onde a avaliação final vai depender de uma postura prévia do espectador e do que ele procura no cinema em geral e neste filme em especial. Aos Nossos Filhos é um filme que apresenta diversas situações de vínculos amorosos, sexuais, familiares e sociais. Todas pouco habituais até agora e que podem originar tensões dramáticas. Acumula excessivamente tais conflitos e pode cansar e até chocar em alguns momentos. Porém, como está contra todo tipo de preconceitos, também pode agradar a muitos espectadores.

Imagens fornecidas pelas assessorias ou retiradas da internet para divulgação/Biografias usadas são da IMDB.
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 Dúvidas, sugestões, parcerias e indicações: contato.parsageeks@gmail.com

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