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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Crítica Cinema | O Farol

(Ideal para quem gosta de terror carregado, com fortes conotações psicológicas
By Tomás allen


Sinopse: Final do século XIX. Quando um novo zelador (Robert Pattinson) chega a uma remota ilha para ajudar o faroleiro (Willem Dafoe), a convivência entre os dois homens é tensionada pelo isolamento. Entre tempestades e goles de querosene, o novato tenta descobrir os mistérios que existem nas histórias de pescador de seu chefe. Um conto náutico dirigido por Robert Eggers, aclamado diretor de "A Bruxa", sobre loucura e medo. Produção RT Features, A24 e New Regency Pictures. Distribuição nacional da Vitrine Filmes. Estreia 02 de janeiro de 2020. Para assistir ao trailer, clique aqui.

O Farol (The Lighthouse)


Filme incomum, absolutamente claustrofóbico, muito bem concebido e realizado. É um relato situado nos anos de 1890, em uma ilha pequena, distante e sombria. Tem um farol cuja luz, obviamente, resulta fundamental para avisar os navios que a terra está próxima. Como há uma praia rochosa e muitas tormentas, isso representa um perigo mortal para os navegantes. Para lá irão Ephraim Winslow (Pattinson) e Thomas Wake (Dafoe), personagens excludentes do filme. Winslow terá a tarefa de ajudar a Wake, antigo responsável da manutenção desse farol. Em inglês Win-slow poderia ser "ganhador lento” ou, provavelmente, “perdedor”; e Wake significa “velório”, traduzido ao português. Unir partes dos sobrenomes dá um resultado inesperado: “Vitória (Win) [do] Velório (Wake)”. Quem for assistir o filme poderá interpretar isto.


As sequências iniciais representam verdadeiras aulas de cinema que podem responder à pergunta de como se cria uma produção cinematográfica que tenha um clima de terror diferenciado, estranho. Com fotografia em preto e branco, aparecem inicialmente as duas figuras humanas que se deslocam desde o continente até a ilha. Os dois têm aspecto desarrumado, com cabelo e barbas muito irregulares. Rosto amargurado em ambos, olhos desiguais em Wake. Tudo é bastante carregado, quase sinistro. A saída do cais é escura, turbulenta. A buzina da embarcação é esquisita, insistente e permanente. Os ruídos – pegadas nos degraus de escadas, motores em funcionamento, etc. – tanto agudos quanto graves são monótonos e inquietantes. Já na ilha, o ambiente não é dos melhores: as construções são antigas e estão mal conservadas. Um colchão em mal estado receberá Winslow, e o interior do local é básico e pouco confortável. O clima também não ajuda: nevoeiro, frio, vento hostil. E as citadas tormentas, que podem ser extremamente fortes e prolongadas. As gaivotas assolam o lugar, com grasnidos desagradáveis e até ameaçadores.


Local inóspito e duas únicas pessoas, rústicas, agressivas e transtornadas. Tudo isso será o contexto em que se vai desenrolar o relato. Winslow é um homem torturado, mas que procura ganhar um bom dinheiro que mudaria sua vida futura e que será pago pelo serviço de auxiliar-faroleiro. Como dito, Wake, um transtornado, será o chefe. Trata-se não apenas de um indivíduo extremamente rude, mas sobretudo, um perverso, agressivo, desafiante, que aproveita seu poder. Winslow parece ser um pouco menos alterado e se resistirá de diversos modos às humilhantes tarefas a que é submetido. Esse confronto de pessoas, de egos, em um meio assim – ilha remota, mínima, agreste; clima desaprazível, aves incômodas – vai piorando e a situação complica-se mais e mais. Aparecem alucinações e delírios, o sexo tem seu papel em modo perturbador e o vínculo entre os dois homens entra em etapas cruéis. O filme traça um desenho e um desenrolar muito interessante desde o ponto de vista psicológico, aliás, psiquiátrico. Implicitamente surgem perguntas intensas: o que pode levar um ser humano à insanidade? Os elementos exteriores podem perturbar gravemente? Quais e até que ponto? Até onde podemos controlar a incerteza e a ameaça do desespero diante de situações-limite? A base que dão os transtornos de personalidade são chaves, mas quando eles não são constituintes iniciais, será que também se pode cair na alienação desintegradora? Os nexos pessoais patológicos podem destruir totalmente ou há alguma forma de escapar?


As atuações de Pattinson e em especial de Dafoe são excelentes (provavelmente este seja nomeado para o Oscar). Há um papel fundamental da fotografia feita por Jarin Blaschke, com características especiais, pois trabalhou em preto e branco e 35 mm., utilizou competentemente os planos, por exemplo com algumas tomadas próximas (planos de detalhe de olhos) e outras longas. São marcantes os contrastes lumínicos que vão aparecer – da escuridão sórdida até a luz que cega, por si própria ou por predisposição de personalidade e circunstâncias. Menção para a música de Mark Korven, onde os sons se misturam com ela e dificultam diferenciá-la – e que foram criados por um departamento de 22 especialistas. Sem esquecer da boa edição, de Louise Ford. Além disso, há assessores de assuntos marítimos e mitológicos. Tudo coordenado por Robert Eggers, o mesmo de A Bruxa (2015), como diretor e co-roteirista, junto com seu irmão Max.  Uma obra gótica nas suas imagens e com muitos elementos religiosos, simbolismos e lendas míticas (Prometeu e Netuno estão presentes). Em alguns aspectos lembra Os Pássaros (de Hitchcock), O Iluminado (de Kubrick) e o expressionismo alemão; e em literatura O Corvo (poema de E.A.Poe) e os escritos de Lovecraft. Os elementos básicos tradicionais estão aqui: água, fogo, terra, ar e luz, junto com personagens da mitologia. Por isso, e muito mais. O Farol é um decurso cinematográfico denso, escuro, que pode sufocar, inquietar e, paralelamente, interessar muito. Especial para o espectador que procura horror não convencional.

Obs.: Biografias de atores e filmes IMDB. As imagens foram disponibilizadas pela assessoria da distribuidora do filme.
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 Dúvidas, sugestões, parcerias e indicações: contato.parsageeks@gmail.com

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