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sábado, 22 de junho de 2019

Crítica Cinema | Santiago, Itália

(Poderosos depoimentos e imagens sobre uma página histórica decisiva no Chile que ecoa até hoje)


Sinopse: Novo filme do aclamado diretor italiano Nanni Moretti... Santiago, Itália destaca o papel da embaixada italiana durante o golpe militar que derrubou o presidente Allende e instituiu uma violenta ditadura no Chile. Muitos opositores buscaram abrigo no local e conseguiram com isso asilo na Itália. O filme traz inúmeras cenas de arquivo e entrevistas de diversos dos personagens desta história, de todos os lados. Documentário italiano com distribuição nacional da Pandora Filmes.

Santiago, Itália


No Chile, entre 1970 e 1973, houve uma disputa política intensa. O período iniciou-se com uma eleição em 1970 onde ganhou Salvador Allende, candidato socialista e de uma ampla coalizão (Unidad Popular). O fez legitimamente, mas só com um 36% dos votos. No dia 11 de setembro de 1973, essa etapa se fechou com um golpe militar encabeçado pelo general Augusto Pinochet. Foram anos marcantes na história do país e, também, de algum modo, na história da humanidade – por seus reflexos na América, principalmente a Latina, e na Europa, em especial na França e na Itália. De tudo isso se ocupa este documentário de Nanni Moretti. É uma série de trinta entrevistas de testemunhas diretas do acontecido, dos quais a grande maioria pertence ao lado de Allende e a esquerda; apenas duas são do setor conservador de Pinochet.


Por isso, em algum momento, Moretti, Diretor, Roteirista, Produtor e até Ator, diz: “(Diante destes sucessos e neste filme) eu não sou imparcial”. A pergunta é: quem pode sê-lo? Porque acontece que o teor dos acontecimentos e o caráter mesmo desta realização demandam um posicionamento dos espectadores. É muito difícil, se não impossível, ser neutro, neutral. Provavelmente muitos dos que nunca assistiriam um filme assim, estão a favor de Pinochet e em contra dos esquerdistas. E os que o assistem se identifiquem ou simpatizem com uma mudança drástica na organização da sociedade. O relato é quente. Talvez não seja brilhante tecnicamente, nem se propõe isso. É, sim, um documentário com forte conteúdo ideológico. Como antes dissemos, tudo indica que o público necessariamente deve estar a favor ou em contra de um dos setores em disputa. Porém, por outra parte, Santiago, Itália não dá muito margem para essa escolha: é um relato com um evidente viés em prol dos progressistas-esquerdistas.


Resulta diferente dentro do panorama cinematográfico internacional atual, onde apenas alguns diretores e produtores são decididamente progressistas, tais como C. Costa-Gavras e Ken Loach. Porém, neste sentido, há uma extensa lista dos próprios realizadores chilenos, algo menos famosos que os anteriores: Patrício Guzmán (Nostalgia de la Luz e o excelente documentário La Batalla de Chile – realizado nos anos de chumbo da ditadura pinochetista -), Miguel Littín (Acta General de Chile, também filmado na clandestinidade), Silvio Caiozzi (Fernando ha vuelto), Pablo Larraín (No e El Club) e o provavelmente menos criativo, porém precursor, Raoul Ruíz (Militarismo y tortura, de 1969, ou seja antecedente da etapa mais recente). Santiago, Itália e os citados títulos podem estar desmentindo uma célebre sentença: “A História a escrevem os triunfadores”. Em todos estes casos e em especial neste, é o contrário: os protagonistas, os que tem a palavra, em sua grande maioria, são os derrotados, os perdedores. São relatos tingidos de raciocínios e, também, de emoções. Não faltam primeiras imagens alegres, com sonhos de melhorias, discursos inflamados (dois do presidente). Mas, a seguir, aparecem as situações de desabastecimento até em alimentos e insumos básicos. Depois, a derrocada do governo democraticamente escolhido, com imagens do Estádio Nacional, magnífico cenário de jogos de futebol, transformado em sinistra prisão de milhares. Há várias referências ao centro clandestino de detenção chamado Villa Grimaldi. Também, não poderiam faltar imagens das ações militares de ataque e repressão e as proclamas e decisões da Junta Militar liderada por Pinochet. E menções do papel dos poderosos do Chile e a atitude decisiva do governo dos Estados Unidos antes, durante e depois do golpe ditatorial contra Allende.


Distribuído em várias etapas, o relato inicia-se em um Chile cheio de esperanças por uma vida melhor cultural, intelectual, social e economicamente. Passa por o papel da
Embaixada de Itália no Chile, as viagens para sair de lá para uma Itália acolhedora dos perseguidos pelo regime de Pinochet e chega até as condições de vida dos exilados nesse novo destino. Nesta ênfase no vínculo Chile-Itália está a novidade de Santiago, Itália pois é um ângulo diferente para – como dito – um tema muito abordado pelo cinema. É sabido que houve caos provocado pelos opositores. Que os integrantes da Unidad Popular e o governo allendista discutiram sobre avançar sem concessões ou ir aos poucos com as mudanças, para não irritar aos poderosos. Que um exército e forças policiais se insubordinaram com poderio militar, por um lado e, por outro, que o governo eleito e seus aliados de diversos partidos não tinham como resistir tal ataque. O que derivou na morte do presidente (suicídio ou assassinato, ele foi coerente com suas ideias, princípios e palavras) e em um extermínio com consequências graves. Isso já é sabido. Mas Moretti ao posicionar-se como pessoa e cineasta, resulta uma grata surpresa. Aliás, traz um olhar italiano a essa paisagem. Aí está sua originalidade.


Chama a atenção que a última palavra com a qual se fecha o filme (e que não revelaremos aqui) é de um dos entrevistados. Escolhida cuidadosamente na vasta produção de imagens gravadas, resulta ser uma chave para interpretar todo o sucedido. Representa a mudança acontecida no Chile e em grande parte do mundo. Talvez até defina as consequências e os objetivos principais, últimos, daqueles que encabeçaram o golpe militar. Santiago, Itália é digno de ser assistido. Para aqueles que já conhecem esta etapa da história chilena, - como dito – fornece uma nova aproximação. Para quem não sabe nada do acontecido, resulta importante aproximar-se a esta versão. Muito interessante filme, este de Nanni Moretti.

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